Os Dez Mandamentos

Fonte: Revista Ide, nº 06, ano 3 – junho/2002
Os Dez Mandamentos do Livro de Êxodo, capítulo vinte, com exceção de um, são reafirmados e aperfeiçoados no Novo Testamento. Guardar o sábado é o único dos Dez Mandamentos que não é reafirmado por Jesus Cristo ou pelo Novo Testamento. Jesus, além de não reafirmá-lo, chega a quebrantá-lo (Jo. 5.18, Mc. 2.23-28). Todavia, é o próprio Senhor Jesus quem afirma em Mateus 5.17,18: "Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: Não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido." Quando Jesus diz que não veio destruir a lei, mas cumprir, significa que a lei teve cumprimento nEle mesmo. Pois antes de Jesus Cristo os sacrifícios eram continuamente oferecidos, mas nenhum deles era suficiente para livrar o homem do pecado. Contudo, o sacrifício oferecido por Jesus foi único e eterno. Foi a única maneira de reconciliar o homem com Deus: "E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem;" (Hb. 5.9). "Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação, nem por sangue de bodes e de bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção." (Hb. 9. 11,12). Dessa forma, após o sacrifício de Jesus, não faz mais nenhum sentido os sacrifícios de animais. Pois o sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo o pecado (I Jo.1.7). E a Palavra de Deus nos afirma que não estamos mais na lei, mas na graça.
Entretanto, o fato de não estarmos na lei, mas na graça, não significa que não devamos obedecer, pois Jesus "...veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem;" O Senhor Jesus afirmou: "Se me amardes, guardareis os meus mandamentos" (Jo.14.15). Através da obediência damos testemunho da nossa fé e do nosso amor a Deus.
"Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?" (Rm.6.1,2)

Assim, o homem continua tendo que obedecer a Deus, mas segundo um Novo Concerto: "Dizendo novo Concerto, envelheceu o primeiro. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar." (Hb. 8.13) "...Porque até hoje o mesmo véu está por levantar na lição do Velho Testamento, o qual foi por Cristo abolido;" (II Co. 3.14). "E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados." (Mt. 26.27,28)
Se o homem deve obedecer a Deus segundo um Novo Concerto ou Novo Testamento estabelecido através de Jesus Cristo, seria este Novo Concerto menos exigente que o velho? Não, pelo contrário. Analisemos os Dez Mandamentos.


Primeiro Mandamento
"Eu sou o Senhor teu Deus que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim." (Ex. 20.2,3). Este mandamento é reafirmado inúmeras vezes no Novo Testamento, sendo que o Senhor Jesus, ao ser interrogado acerca do primeiro mandamento, respondeu: "...O primeiro de todos os mandamento é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças: este é o primeiro mandamento." (Mc. 12.29,30) E ainda é o Senhor Jesus quem demonstra as exigências quanto a este amor e quanto a esta adoração ao afirmar: "Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim (...) Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida por amor de mim achá-la-á." (Mt. 10.37,39) Tal exigência encontra-se, ainda, em Mateus 16.24-26 e em Marcos 8.34-37. Ou seja, o Senhor requer de nós uma adoração tal, de forma que o amemos mais do que a nossos pais, mais do que a nossos filhos e mais do que a nossa própria vida.


Segundo Mandamento
"Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem, e faço misericórdia em milhares aos que me amam e guardam os meus mandamentos." (Ex. 20.4-6). Este Mandamento é reafirmado várias vezes no Novo Testamento (Ap. 21.8, Ap. 22.15, I Co. 6.10, II Co. 6.16-18, G1. 5.19.21), inclusive mostrando que a idolatria é o culto a demônios (I Co. 10.14-21, Ap. 9.20).
De certo modo, o conceito de idolatria é ampliado no Novo Testamento, aumentando as exigências quanto a este mandamento. Pois a avareza também é considerada idolatria: "Mortificai pois os vossos membros, que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, o apetite desordenado, a vil concupiscência, e a avareza, que é Idolatria;" O ídolo é uma estátua, figura ou imagem que é objeto de adoração. Mas também é ídolo qualquer coisa que ocupe o lugar de Deus em nossos corações. Quando amamos o dinheiro, que apesar de sua utilidade, não deveria ser objeto de nosso amor, estamos cometendo idolatria (Mt. 6.24). Quando Jesus afirma o quanto é difícil um rico entrar no reino dos céus, Ele mesmo esclarece que o problema está na confiança que o homem deposita nas riquezas (Mc. 10.23-25). O apóstolo Paulo afirma que o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males (I Tm. 6.10) e aconselha os ricos deste mundo que não ponham sua esperança na incerteza das riquezas e que não façam delas um uso egoísta (I Tm. 10.17,18).


Terceiro Mandamento
"Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão." (Ex. 20.7). Em Levítico 19.12 está escrito: "Nem jurareis falso pelo meu nome, pois profanaríeis o nome do vosso Deus: eu sou o Senhor". A lei proíbe que se tome o nome do Senhor em vão, assim como proíbe o falso juramento. Mas no Novo Testamento, o Senhor Jesus proíbe que se jure por qualquer coisa: "Outrossim, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao Senhor. Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei; nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna." (Mt. 5.33-37). Novamente, as exigências no Novo Testamento, relativas a este mandamento, são maiores que as exigências do Antigo Testamento.


Quarto Mandamento
"Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, e o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou." (Ex. 20.8-11). Jesus quebrantou o sábado (Jo. 5.18), dizendo que o sábado foi criado por causa do homem e não o homem por causado sábado. Também afirmou que o Filho do Homem, ou seja, Ele próprio, até do sábado é Senhor (Mc. 2.23-28). Guardar o sábado é o único dos dez mandamentos que não é reafirmado no Novo Testamento. Também é um mandamento de cunho ritual, ao contrário dos outros, que são de cunho moral. Interessante que a Santa Ceia dos apóstolos não era celebrada no sábado, mas no domingo, que é o primeiro dia da semana e que passou a ser o Dia do Senhor, pois foi o dia em que o Senhor Jesus ressuscitou (At. 20.7, Ap. 1.10). Em Cl. 2.16,17 proíbe-se julgar aqueles que não guardam os sábados, chamando este Mandamento de "sombra das coisas futuras". Em Gl. 4.9-11 o apóstolo Paulo refere-se a esse mandamento como um rudimento que não precisamos voltar a servir. Contudo, não devemos condenar aqueles que ainda o fazem (Rm. 14.4-6)


Quinto Mandamento
"Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá." (Ex. 20.12). No Novo Testamento, esse mandamento é reafirmado, como o primeiro mandamento com promessa, sendo-lhe ainda acrescentadas bênçãos: "Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa; para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra." (Ef. 6.2,3). O Senhor Jesus também exclui qualquer pretexto que seja obstáculo para o cumprimento do mesmo (Mc. 7.10.13, Mt. 15.4-9).


Sexto Mandamento
"Não matarás." (Ex.20.13) No Novo Testamento é reafirmado inúmeras vezes (AP. 21.8, Ap. 22.15, Gl. 5.21), e de maneira muito mais exigente, mostrando que é homicida não somente aquele que mata, mas também o que não ama a seu irmão, o qual não herdará a vida eterna (I Jo. 3.12-15). Em Mateus 5.21-24 a Palavra de Deus chega a afirmar que aquele que não se reconciliar com seu irmão, nem mesmo a sua oferta será aceita diante do altar e que será réu de juízo aquele que, sem motivo, se encolerizar contra o seu irmão. Em Mateus 25.32-46 está escrito que aquele que fechar os seus olhos para a necessidade de seu próximo, será apartado de Deus e lançado no fogo eterno. Assim, o "olho por olho e dente por dente" do Antigo Testamento é substituído pela ordem de oferecer a outra face, no Novo Testamento (Mt. 5.38,39). E isto é muito mais do que simplesmente "Não matarás".


Sétimo Mandamento
"Não adulterarás" (Ex. 20.14). Também é reafirmado inúmeras vezes no Novo Testamento e com uma exigência moral bem maior: "Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu porém vos digo que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela. Portanto, se o teu olho te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno." (Mt. 5.27-29). Além disso, Moisés permitia que uma mulher fosse repudiada, mediante carta de divórcio, mas Jesus afirma que aquele que se casar novamente, sendo seu cônjuge ainda vivo, comete adultério. (Mc. 10.2-12)


Oitavo Mandamento
"Não furtarás." (Ex. 20.15). Esse mandamento é reafirmado direta (Mt. 19.18, I Co. 6.10, I Pe. 4.15, Ef. 4.28) ou indiretamente em diversas passagens do Novo Testamento. Assim, furtar não é somente roubar o que é dos outros, mas também explorar o próximo ou deixar de pagar-lhe o que lhe é devido (Tg. 5.4). Além disso, no Novo Testamento fica clara a necessidade de trabalhar com as próprias mãos e não se intrometer em negócios alheios (II Ts. 3.10-12, I Ts. 4.11,12)


Nono Mandamento
"Não dirás falso testemunho contra teu próximo." (Ex. 20.16). Falso testemunho contra o próximo é o mesmo que calúnia. E no Novo Testamento está escrito que devemos nos afastar dos caluniadores, pois, juntamente com outras classes de defeitos, são corruptos de entendimento e réprobos quanto à fé, resistindo à verdade. Também está escrito que os mesmos não irão avante (II Tm. 3.3-9). Em Tt. 2.3 está escrito que as mulheres idosas devem viver como convém a santas, não caluniadoras. Além disso, o falso testemunho ou a calúnia não deixam de ser uma mentira. E no Novo Testamento existem várias citações sobre a mentira (Ef. 4.25, Cl. 3.9), inclusive afirmando que os mentirosos não herdarão o reino dos céus (Ap. 22.15, Ap. 21.8). A mentira provém do diabo, que é o pai da mentira (Jo. 8.44). Mas Deus é Verdade. O Senhor Jesus afirmou que Ele é o caminho, e a verdade, e a vida... (Jo. 14.6)


Décimo Mandamento
"Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem cousa alguma do teu próximo." (Ex. 20.17) No Novo Testamento está escrito que devido a cobiça "alguns se desviaram da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores." (I Tm. 6.10). Em Tiago 4.2 está escrito que os cobiçosos nada alcançam. A cobiça também pode lançar no inferno (Mt. 5.27-29). Além disso, a raiz da cobiça está na inveja. E a inveja mata (I Jo. 3.12). A inveja é um sentimento diabólico, trazendo perturbação e toda obra perversa (Tg. 3.14-16).